AESCA lança projeto que une recuperação ambiental e geração de renda no sul do Paraná
- coomunica30
- 13 de fev.
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Atualizado: 26 de fev.
Corredor ecológico, viveiros de mudas, bioinsumos e formações técnicas integram as ações de recuperação de mais de 268 hectares nos assentamentos de Teixeira Soares

A pequena Teixeira Soares, no sul do Paraná, está cercada por duas grandes reservas ambientais: a Floresta Nacional de Irati e a Reserva Biológica das Araucárias. Apesar disso, o que os olhos alcançam no horizonte é um campo infindável de soja. Há muitos anos, a cidade de pouco mais de 9 mil habitantes sobrevive do agronegócio, que colhe anualmente três safras. A soja é a principal delas, mas também são cultivados trigo, cevada, feijão e fumo.
Os 268,16 hectares previstos para recuperação ambiental abrangem dois assentamentos da reforma agrária — São Joaquim e João Maria Agostinho — onde vivem mais de 150 famílias. Muitas delas são produtoras de commodities. Por isso, quando o projeto Conectando Biodiversidades e Consciências na Mata Atlântica foi apresentado, em fevereiro do ano passado, houve muita resistência, especialmente por parte de moradores do assentamento João Maria Agostinho, que já possui três áreas de reserva ambiental. A preocupação era de que aderindo ao projeto, estariam impelidos a restaurar mais florestas e assim perderiam áreas de produção.
Mas o Sr. Luiz Carlos Opata, residente do PA São Joaquim, acredita que essa resistência se deve à desinformação. Vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Teixeira Soares e profundo conhecedor da realidade local, ele esperava há muito tempo uma iniciativa como esta. Desde que chegou, em 1997, viu a expansão da agricultura empresarial avançar sobre as áreas de mata ciliar, causando o assoreamento dos rios, a extinção da fauna local e afetando diretamente o clima da região. Com seu próprio pluviômetro, constata com tristeza a irregularidade e a escassez das chuvas a cada ano. Para ele, o potencial do projeto está em recuperar áreas devastadas com foco na produção e no desenvolvimento econômico das famílias. Por isso, esteve presente na mesa de abertura do lançamento do projeto, realizado na Câmara de Vereadores de Teixeira Soares, na noite de quarta-feira, 11 de fevereiro.

José Antônio Louzada apresentou o projeto da AESCA a um auditório lotado em Teixeira Soares
O lançamento do projeto
Ao apresentar o programa a um público diversificado de técnicos, gestores, financiadores e beneficiários que lotou a Câmara de Vereadores, o agrônomo José Antônio Louzada, lembrou da pedagogia de Paulo Freire e destacou a necessidade de ouvir as famílias no processo de implementação. “É preciso considerar que a região é muito produtiva e as commodities são fonte de renda para muitas famílias. Por isso, estamos apostando em uma estratégia de bioinsumos para o manejo e tratamento das culturas”, afirmou. Louzada destacou ainda que o projeto é uma oportunidade de compensação para as famílias que possuem passivos ambientais.
Conectando Biodiversidades e Consciências na Mata Atlântica é a proposta da AESCA, viabilizada por edital do FUNBIO (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade), que gerencia o programa Floresta Viva, financiado pelo BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e pela Philip Morris. Além da Associação, a empresa privada Mater Natura também foi contemplada pelo edital e executará o projeto “Elos da Mata Atlântica” em outras três localidades. Juntas, as duas instituições devem recuperar cerca de 500 hectares de mata degradada. Um dos principais objetivos é construir um corredor ecológico que permita a circulação da fauna entre fragmentos florestais.
A fauna local é uma preocupação dos antigos assentados como Seu Antônio Borges que, ao conversar com a equipe da AESCA, lamentou a morte de duas jaguatiricas ocorrida horas antes do lançamento, às margens da rodovia Plauto Miro Guimarães. Assentado em Teixeira Soares desde que a área foi ocupada, em 1987, ele relata que os animais selvagens são cada vez mais difíceis de enxergar.
Sua preocupação é condizente com seu trabalho pois Seu Antônio cuida com carinho de cada animal de sua propriedade. As vacas leiteiras são alimentadas com silagem feita a partir de milho e aveia, produzidas e conservadas ali mesmo, em meio às hortaliças, frutas e verduras, que também cultiva. Seu Antônio se considera um dinossauro do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e está feliz com a oportunidade do projeto beneficiar assentados da reforma agrária, já que plantar árvores e produzir alimentos saudáveis é uma premissa do movimento. Com orgulho, conta que os produtores agroecológicos da região já somam 22 famílias certificadas pela Rede Ecovida e sonha em montar uma cooperativa no futuro.
Camila Modena, também militante e representante do setor ambiental do MST do Paraná, participou da articulação do projeto junto às famílias assentadas e reforçou as palavras do companheiro Antônio. Apesar da diferença de idade, ela reconhece e enaltece a trajetória de trabalhadores rurais como ele, que há décadas lutaram pela regularização da terra e seguem defendendo a permanência do modo de vida camponês diante das agressões ao meio ambiente. Camila também lembrou a tragédia de Rio Bonito do Iguaçu, quando um tornado inédito - de magnitude 4 em uma escala 5 - atingiu o município. Para ela, ações de restauração como essa dialogam com o esforço do MST que, desde 2003, promove a Jornada da Natureza no Paraná, onde são realizadas ações massivas de recuperação ambiental como a semeadura aérea de 30 toneladas de açaí juçara e o mutirão que plantou seis mil mudas em 20 minutos no sul do estado.
Recuperar o meio ambiente e fortalecer a comunidade
O diferencial do projeto da AESCA é justamente a integração entre recuperação ambiental e o fortalecimento comunitário. Além da restauração das áreas degradadas, a iniciativa investe na mobilização das famílias e na cadeia produtiva, com a criação de viveiros de mudas nativas, formação de redes de coleta de sementes e capacitações em bioinsumos e agricultura regenerativa. Também estão previstas oficinas, cursos práticos e ações de comunicação e educação ambiental para engajar as comunidades.
Esses são os aspectos que mais empolgam Seu Luiz Opata, que aposta na experiência prática para consolidar a consciência ambiental na comunidade. Ele fala com entusiasmo dos viveiros, que permanecerão como patrimônio dos assentamentos mesmo após os 48 meses de duração do projeto — 24 dedicados à implementação e 24 ao monitoramento das áreas restauradas.
Para Guilherme Studart, economista do departamento de meio ambiente do BNDES, desde a criação do Floresta Viva, em 2021, já foram lançados 15 editais, com orçamento de 250 milhões de reais. Até o fim do ano, a expectativa é chegar a 100 projetos executados. “A gente acredita que programas como este geram multiplicação em vários biomas e trazem impacto social ao desenvolver esses territórios”, afirmou. Segundo Pablo Lastra, analista de projetos do FUNBIO, a floresta traz benefícios diretos ao produtor: protege do vento, favorece a presença de abelhas e contribui para a formação de nuvens e para a regularidade das chuvas.
Dilso Barcelos, secretário executivo da AESCA, também destacou o aspecto social e humano do projeto. Ele ressaltou o nome da iniciativa, que conecta natureza e pessoas, lembrando que somos parte de um mesmo sistema. Agradeceu aos parceiros, especialmente às famílias e aos financiadores, sem os quais o projeto não seria viável, e concluiu: “Este projeto também é sobre a preservação humana, de nossa espécie neste planeta”.
O evento terminou com um coquetel, no qual foram servidos canapés e produtos da reforma agrária, como os sucos integrais da marca Terra Viva. Entre as conversas, o clima era de expectativa: nos próximos anos, a recuperação da floresta deve caminhar junto com o fortalecimento da produção, da comunidade e da consciência ambiental nos assentamentos.


















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